Alguém disse tacho?

por João Mendes 0

Por vezes gosto de recordar os nossos leitores – tanto os que nos acompanham por interesse, gosto e/ou curiosidade, como os haters que a elite instiga contra este projecto com as mentiras infanto-imbecis do costume – sobre a dualidade de critérios das claques partidárias face aos alegados tachos que os partidos no poder distribuem pelos seus. É um exercício que me agrada, reavivar as memórias selectivas da malta dos dois pesos e das duas medidas.

Agora que nos encontramos na recta final do presente mandato, poderia aqui fazer um apanhado de todos os jotinhas, barões e amigos que receberam o seu alegado tacho das mãos do executivo Sérgio Humberto. Poderia falar nos vários estágios remunerados, dados a membros dedicados da JSD, da câmara municipal ao Aquaplace, poderia falar nos bons empregos e ajustes directos que se foram distribuindo, isto para não falar noutros que, tendo a espinha dorsal de uma alforreca, se venderam por poucas centenas de euros mensais. Poderia até falar nos vários amigos promovidos pelo executivo, e assim à cabeça lembro-me de um senhor desonesto e muito mal-educado, que reage a factos com insultos. E talvez o venha a fazer, que é sempre um consolo ver os arregimentados tremer perante a possibilidade da exposição do compadrio. Mas não será hoje. Hoje dedico-me a um caso isolado, um caso que tem tantos paralelos com o passado que deveria fazer muita gente corar de vergonha.

Quem se recorda das críticas endereçadas ao anterior executivo por colocar os seus boys na Trofáguas? Eu recordo-me muito bem, até porque integrei o coro dos indignados, e guardo uma série de recordações, das mais variadas patentes do actual regime, em formato captura de ecrã. Recordo a fúria e a revolta das hostes laranjas, recordo-me muito bem do que foi dito e escrito e recordo-me da forma como tais factos foram exaustivamente usados durante a campanha para as autárquicas de 2013. Saudoso Toninho!

Contudo, e porque a hipocrisia e ascensão na política tendem a andar de mãos dadas, das hostes social-democratas nem um pio sobre os alegados tachos distribuídos pelo actual executivo, exactamente a mesma postura que tiveram as tropas socialistas em 2013. Porque os tachos de uns são sempre mais merecidos do que os tachos dos outros. Ou não fossem deles. Aliás, estou até bastante admirado por não ver o PS explorar estes meandros. O PSD não teria piedade, como se viu em 2013. E rabos presos não faltam num e noutro partido. Mas é engraçado como não se ouve um pio dos guardiões do orgulho trofense.

Porém, de todos os casos que são conhecidos, que podem perfeitamente ser enquadrados no discurso anti-tacho promovido pela coligação em 2013, há um que me causa particular estupefacção, por encerrar em si quase todas as críticas que foram feitas aos alegados tachos da era Joana Lima. Falo-vos do caso do secretário e membro do executivo da freguesia de Bougado, Miguel Costa, funcionário da Trofáguas desde os tempos de Bernardino Vasconcelos, cuja esposa passou de uma função técnica para directora-geral da empresa, pouco após a tomada de posse do actual executivo, liderado por um amigo pessoal de ambos, e que, pelos vistos, tem ainda uma outra familiar na mesma empresa, a tal que era para extinguir. Falo-vos do mesmo Miguel Costa cujo o irmão, poucas semanas antes da FAT 2016, fez parte da criação de uma associação, a Equestrian Events, que foi imediatamente agraciada com a organização dos eventos equestres da Feira Anual, após o afastamento algo polémico e mal explicado da Confraria do Cavalo, Feira Anual essa que é uma organização a cargo de quem? Da junta da União de Freguesias de Bougado. E quem é que faz parte desse executivo? Exactamente: Miguel Costa.

Agora parem um minuto, imaginem que estamos em 2013 e que a família é socialista, de preferência a de Joana Lima. O que teria dito a malta hoje no poder, perante este emaranhado de ligações? Não preciso de responder, pois não?

Alguém disse tacho?

João Mendes

Radicalmente contra todas as formas de instrumentalização dos recursos públicos em função dos apetites partidários e com um apetite insaciável pela desconstrução de mentiras e outros embustes que nos são diariamente oferecidos pelas elites dirigentes, a minha luta é por um concelho da Trofa mais transparente, mais íntegro e no sentido da evolução contínua, onde o poder cuja função é servir-nos pode e deve ser questionado. Das pessoas para as pessoas, sem medo nem clientelas.

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