Orgulho Trofense - Então e eu?

por César Alves 0

                 Caro leitor, estou triste. Deve-lhe ser familiar, a si que me lê, aquela sensação de desilusão que temos perante pessoas que conhecemos na vida que, a certa altura, nos mostram uma face que não fazíamos ideia que existia.

                 A foto acima foi tirada no dia 13 de fevereiro de 2016, num dos dias mais felizes da minha: o lançamento do meu primeiro livro. Àparte da maledicência do povo, exemplificada por uma funcionária da minha escola secundária, que me disse: «Escreveste um livro, pensas que já és doutor», foi a realização de um sonho, perante família e amigos. Ao meu lado, o atual Presidente da Câmara Municipal da Trofa, Sérgio Humberto, que conheço há largos anos, desde o tempo de aluno da Escola EB 23 Prof. Napoleão Sousa Marques.

                O livro teve o apoio da CMT como qualquer outro tem ou deverá ter, fruto ser um trabalho realizado por trofenses, e a Trofa estar, invariavelmente, representada.

                20 meses depois, as coisas não poderiam ser mais diferentes.

                Aquando das intervenções dos representantes camarários, fui apelidado de "Orgulho Trofense". Qualquer um de nós gosta de ouvir uma coisa destas, principalmente num dia desta envergadura. Foi, mais tarde, que percebi que não passava de um soundbite ao melhor estilo do "BFF" Paulo Portas.

                O orgulho trofense está nas ruas

                Não publiquei, como é óbvio, os pendões que utilizam crianças para fazer propaganda política. Baixo, desprezível e sem comentários.

                A questão que me coloco, hoje, a 2 dias do ato eleitoral, é: porque é que já não me sinto um orgulho trofense, pelo menos no entender das mesmas pessoas que me associaram ao soundbite? Não me sinto, porque deixei de ser cumprimentado. Porque nunca mais fui convidado a falar do meu livro em nenhum evento da cidade. Deixei de existir ou... Passei a ser do contra?

                É que, dois meses volvidos do evento, iniciei a minha colaboração com o jornal O Notícias da Trofa, o mesmo que foi esta semana acusado de falta de isenção, apesar de partilhar a cobertura noticiária com o Correio da Trofa, esse que só publica o que lhe interessa (lhe = Unidos pela Trofa), o mesmo jornal que tentaram expulsar de um evento público. Terá sido por aí?

                Ou terá sido pelo facto de que, no dia 20 de julho de 2016, iniciei funções como cronista neste espaço, um espaço de crítica fundamentada, alicerçada em factos ou, pelo menos, baseada num pensamento livre, equidistante, "sem medos, nem clientelas"? Um espaço que é, muitas vezes, a única voz de oposição perante governações baixas e reles?

                A terceira opção possível será com o início também da minha colaboração com o Clube Slotcar da Trofa, uma associação perseguida e ostracizada pelo executivo camarário por ter, dentro das suas fileiras, pessoas com opinião própria pública, que não agrada aos senhores que, supostamente, são eleitos para representar todos nós. Uma associação que "reforça a Trofa", um clube que chega e quer chegar mais longe, aos mais jovens, que quer criar condições para que se realizem atividades, ações de solidariedade, com uma moldura humana que trabalha em prol do outro. Uma associação, aliás, elogiada publicamente por Sérgio Humberto aquando da tomada de posse do Conselho Muncipal da Juventude... onde? Na sede do Clube Slotcar da Trofa.

                Mas não, caro leitor. Não é nenhuma destas razões a base para eu ter deixado de ser um "orgulho trofense". A razão é muito simples: as mesmas pessoas que o disseram, descobriram que eu pensava. Descobriram, talvez não soubessem, que eu não abano bandeirinhas, que eu não apoio governações com tiques ditatoriais, que eu não sou reles e sem escrúpulos, nem entro em jogos políticos. Não sou um jotinha, não sou uma marioneta. Penso, reflito, critico, elogio, sempre com liberdade e com a isenção pela qual sempre me pautei.

                Talvez quisessem que eu fosse cronista... No pasquim Correio da Trofa? Que eu escrevesse insultando o outro, colocando em causa o caráter do outro, que eu baseasse a minha escrita no insulto e no baixo nível? Ou que fosse repórter da máquina de propaganda Trofa Digital? Que, com todas essas funções, fosse mais um membro do exército que pretende aprisionar a liberdade trofense durante mais 4 anos? E que não olhasse a meios para atingir os fins? Ou que eu fosse um jotinha social-democrata e, fazendo uso da minha licenciatura em Cinema, montasse um vídeo em que tento distorcer aquilo que os cidadãos trofenses dizem, num ato de manipulação execrável? Ou que usasse a minha criatividade literária para engendrar mais um espetáculo de porrada? Azar deles, nunca escrevi nenhuma distopia. Mas inspiração para tal não se inibiram de me fornecer.

                Domingo, 1 de outubro, assinalam-se as primeiras eleições autárquicas em que poderei, legalmente, votar. E se, há 4 anos, me regozijei pela vitória do "Professor Sérgio Humberto", e achei que a Trofa iria ter uma governação excelente, por tudo aquilo que associava ao vencedor da altura, hoje percebo que o meu voto de domingo não foi decidido hoje, ou ontem. Foi decidido quando escolhi defender a Trofa. Quando decidi dar o meu contributo em forma de escrita, em forma de diálogo ou em forma de ação pelo futuro da Trofa, dos jovens Trofenses. Se eu escolhi a Trofa no ano anterior, quando me tornei, decididamente, um cidadão ativo na comunidade, então sei que os que se dizem unidos pela Trofa não poderão ter o meu voto. Se não for por mais nada, que seja pelo facto de que, de unidos, nada têm. Interna e externamente.

                Portanto, caro leitor, esta é e foi a minha experiência nos últimos 20 meses. Porque penso que um voto, algo tão importante, não se pode decidir no dia de reflexão. Decide-se no dia a dia, no decorrer de um mandato. Não vou em eleitoralismos, em bandeirinhas, canetas ou blocos de notas. Vou pela Trofa.

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