Como ganhar eleições na Trofa

por João Mendes 0

O Amadeu Dias, cujo grau de relacionamento que com ele tinha, na antecâmara das eleições autárquicas de 2017, era exactamente o mesmo que tinha com Sérgio Humberto quatro anos antes, surpreendeu-me pela positiva, com uma campanha honesta, aberta, sem esquemas de manipulação ou subterfúgios cobardes. Teve a ousadia de se colocar em directo, por duas vezes, para responder aos trofenses que o quiseram interpelar. Disse sim ao debate e apresentou ideias concretas. Andou na rua, sem grande apoio do baronato do PS local, que pareceu pouco envolvido na campanha – o que a meu ver foi uma excelente notícia, sinal da necessária renovação de que o PS Trofa precisa – e lutou com as armas que tinha, num terreno inclinado e contra um adversário que tinha do seu lado largos recursos, seus e da autarquia, e uma máquina de propaganda altamente profissionalizada capaz bajular e, simultaneamente, desferir ataques pessoais a quem incomoda o chefe.

Num terreno mais inclinado ainda, Fernando Sá, candidato pela CDU, teve o apoio incondicional do seu partido, mas a gritante falta de recursos, quando comparada aos dos restantes candidatos, não lhe permitiu ter o palco mediático de que os seus adversários beneficiaram. Não há dinheiro para grandes outdoors, substituídos à medida que a campanha avança, ou para grandes comícios com porcos no espeto, bebida a rodos e atracções musicais. As ideias estavam lá, é certo, mas a divulgação deixou algo a desejar. A utilização das redes sociais, fundamentais nesta era tecnológica e essenciais para atingir um público mais jovem, foram, a meu ver, subaproveitadas. Tal como o candidato socialista, Fernando Sá não virou a cara ao debate nem se escondeu por trás de comunicados de ocasião. E, apesar de tudo isto, apesar de ser um candidato jovem e menos conhecido que alguns dos seus camaradas de partido, Fernando Sá conseguiu melhorar o resultado de 2013. Ao contrário daquilo que aconteceu com Amadeu Dias. Poderá parecer pouco, mas, dadas as circunstâncias, parece-me que terá motivos para se sentir orgulhoso, numa terra onde o anti-comunismo primário, não raras vezes instigado por saudosistas do Estado Novo instalados em partidos democráticos, continua a ser um enorme obstáculo para a CDU.

Sem surpresas, Sérgio Humberto venceu as eleições e, diga-se, com relativa facilidade. Tanta facilidade que custa a perceber a onda eleitoralista que varreu o concelho nas semanas que antecederam as eleições. Como custa a perceber a cobardia de se esquivar ao debate promovido pelo Notícias da Trofa/Trofa TV, quando todos os candidatos às freguesias, bem como a candidata à Assembleia Municipal, concederam entrevistas a estes órgãos. A meu ver, a máquina por trás da candidatura do reconduzido presidente percebia bem as fragilidades dos seus adversários e sabia que “fazer-se de morto” seria uma estratégia fácil e proveitosa. Sabia também que nenhum dos seus adversários tinha os recursos para fazer aquilo que fez em 2013: criar um jornal de raiz, destinado a denegrir os seus adversários directos, criar divisões no seu seio e glorificar os seus criadores. Podemos tecer as considerações que quisermos, mas a estratégia de destruição do anterior executivo foi extremamente eficaz.

Concluo, e a conclusão vale o que vale, que a fórmula mais fácil de ganhar eleições na Trofa passa por algo como montar uma campanha de manipulação da opinião pública, se necessário recorrendo a um jornal de fachada, lançar uns panfletos aqui e acolá, usando a vida privada de quem se pretende destruir como arma política, e conseguir que um conjunto de pessoas as dissemine todo e qualquer conteúdo sem questionar. Poucas coisas são tão eficientes, na pequena política local, como dar casos polémicos à opinião pública, fabricá-los, se necessário, e provocar conflitos para dividir quem se opõe. Uma vez no poder, mantê-lo não é particularmente difícil. Raros são os autarcas que se deixam cair no final do primeiro mandato. E, se as coisas ficarem feias, nada como meia dúzia de grandes festas, uma grande obra com o timing eleitoralista certo e uma máquina de propaganda bem oleada, capaz de usar os seus recursos, sejam eles jornais de propaganda ou páginas nas redes sociais, ou, se necessário, os recursos da própria autarquia, que podem ser cartazes de propaganda pagos pelo erário público para promoção do regime vigente, por muito aldrabados que sejam, ou manobras como a multiplicação dos passeios para idosos e dos recursos a eles alocados, inaugurações despesistas ou a utilização de eventos públicos para o culto do chefe. Parece fácil, é até é. Se é honesto, ético ou digno são outros 500. Mas é o que temos e os trofenses pronunciaram-se com clareza nas urnas. 

João Mendes

Radicalmente contra todas as formas de instrumentalização dos recursos públicos em função dos apetites partidários e com um apetite insaciável pela desconstrução de mentiras e outros embustes que nos são diariamente oferecidos pelas elites dirigentes, a minha luta é por um concelho da Trofa mais transparente, mais íntegro e no sentido da evolução contínua, onde o poder cuja função é servir-nos pode e deve ser questionado. Das pessoas para as pessoas, sem medo nem clientelas.

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