Do pleno ao nada

por José Calheiros 0

Num tempo perdido no próprio tempo, havia cinco Universos, unidos sem distinção. Um deles, achando-se mais sombrio do que os outros por ter mais buracos negros, sentia-se especial. Imbuído de um espírito independentista, separou-se.

Nesse Universo, agora só, mas mesmo assim infinito, além dos buracos negros, tinha poeiras cósmicas, cometas, estrelas,... e galáxias. Das inúmeras galáxias existentes, e das que não se sabiam existentes, havia uma que se achava distinta e imbuída de um espírito independentista, desanexou-se do Universo a que pertencia.

Nesta galáxia, com planetas de tamanhos e cores diversos, e a distâncias diferentes da sua estrela, um deles, por ter vida, não lhe era suficiente o estatuto especial que tinha e declarou unilateralmente a indepêndencia da galáxia a que pertencia.

Neste planeta, com um único continente, de nome Pangeia, a Natureza, caprichosa, dividiu-o em vários continentes.

Cada um deles dividiu-se em países, que por sua vez se dividiram em regiões, e as mais ricas, fartas das regiões mais pobres, amotinaram-se, e separaram-se do país a que pertenciam.

Nessas regiões, com muitos bairros, o industrial, que com as suas fábricas produziam e criavam riqueza, separou-se dos outros bairros.

Carlos, gerente da fábrica que mais facturava de um destes bairros industriais, e com um excelente ordenado, como era o que mais contribuia para o orçamento familiar, divorciou-se da esposa e não quis saber dos filhos que, tal como tragédias naturais, só lhe davam despesa.

Hoje de manhã, Carlos teve um AVC, que lhe imobilizou o braço direito. O esquerdo, habituado a descansar à sombra da bananeira, já que Carlos era destro, teve que começar a trabalhar. Revoltado com o seu destino e não querendo sustentar o braço direito, o esquerdo, amputou-se do corpo de Carlos.

Agora, independente e uno, o braço esquerdo era senhor do seu destino. Mas com o tempo a mão começou a ganhar calos e desanexou-se do antebraço. Agora, atingida a divisão até à perfeição do punho livre que trabalha, os dedos reagem contra a palma, que nada agarra e em referendo os dedos declaram indepência. De nariz empinado, o dedo indicador, de postura erecta, censurou os outros dedos expulsando-os da sua vizinhança. Só, o dedo indicador virou-se contra si, degradando e dividindo-se, até restar um enorme vazio.

Este enorme vazio é constituido por cinco grandes vazios, unidos e sem distinção. Um deles, achando-se mais oco do que os outros...

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