Depressa e bem, há pouco quem

por João Mendes 0

A passada semana revelou um dado curioso que nos traz de volta aos meses que antecederam as autárquicas. Subitamente, o executivo camarário decidiu introduzir uma alteração à circulação no interior da Alameda da Estação. Com esta alteração, que permite agora aos automobilistas virar à esquerda no final da Rua Conde São Bento, presumo que se pretenda combater os engarrafamentos que quase todos os dias entopem aquela rua, bem como a Rua Camilo Castelo Branco, com impacto negativo na vida de moradores e das muitas pessoas que ali trabalham ou têm os seus negócios. A circulação na Rua Conde São Bento nunca foi a mais fluída, é certo, mas a alteração das regras que resultou da obra da Alameda piorou substancialmente a situação.

No final de Outubro, publiquei neste espaço sobre a necessidade de uma alternativa para uma situação que se estava a tornar insustentável nas ruas Conde São Bento e Camilo Castelo Branco. Antes de mim, já muitos outros, de diferentes sensibilidades, nomeadamente moradores, comerciantes e pessoas que de uma forma geral trabalham naquela zona (não são poucas), mas também outros trofenses, com quem me vou cruzando pelo caminho, que defendem soluções alternativas, discutiram o tema em plataformas virtuais e na rua. Não existe consenso.

Existem argumentos válidos para fechar e transformar a rua Conde São Bento num espaço pedestre, que encaixaria – e bem – na Alameda da Estação. Outros que defendem que se possa criar uma ligação entre a Conde São Bento e a Rua Costa Ferreira. Talvez a solução executada pelo executivo camarário seja a melhor. Quem sou eu para discutir a pertinência de uma decisão destas? Logo eu, que não consigo ser imparcial por fazer parte da claque a favor de uma rua Conde São Bento fechada ao trânsito, principalmente agora que temos um parque gratuito no centro da metrópole, pelo menos até ao dia em que algum autarca decida que é tempo de arranjar mais uma fonte de rendimento.

Mas o que eu sei, e isto é factual, sendo o meu facto a alteração levada a cabo pela autarquia, é que e que o planeamento da obra falhou. Não falhou no seu todo, como é óbvio, mas não teve em consideração o impacto da decisão sobre a circulação automóvel, que obrigou agora o executivo a emendá-la.

Esta situação é muito grave? Cada um julgará por si. A meu ver, acontecem coisas bem mais graves nesta terra. Mas é ilustrativa daquilo que pode ser uma das consequências do eleitoralismo: o mau planeamento. Porque a obra eleitoralista tende a ser feita em cima do joelho, com a pressa que a proximidade das eleições obriga, e algo acaba por falhar, ou porque foi negligenciado, porque o apertado prazo de execução não permite preparar tudo ao detalhe, como uma obra de valor superior a 2 milhões de euros exige, ou por simples ignorância. Em suma, é legítimo admitir que, caso tivesse havido mais reflexão e melhor planeamento, a obra final teria sido inaugurada com a alteração agora introduzida. Afinal de contas, para a autarquia a fazer, é porque é melhor do que a solução que inicialmente apresentou. E não me venham com a história do tempo: se há tempo e mão-de-obra para propaganda, também tem  que haver para reflectir sobre o bem público.

A Alameda da Estação, uma obra importante, que literalmente devolveu dignidade a um espaço com uma importância vital para a memória comum e para a história trofense, foi alvo de uma gestão eleitoralista, consumada numa inauguração que serviu de arranque de campanha triunfal não-oficial para a coligação PSD/CDS-PP, apesar de não estar concluída e de, sabemos agora, apresentar falhas estruturais ao nível da circulação numa artéria que desemboca na ultracongestionada rotunda do Catulo. É por situações como esta que o eleitoralismo deve ser combatido. E por imperativo de decência.

Fotografia: Facebook CM da Trofa

João Mendes

Radicalmente contra todas as formas de instrumentalização dos recursos públicos em função dos apetites partidários e com um apetite insaciável pela desconstrução de mentiras e outros embustes que nos são diariamente oferecidos pelas elites dirigentes, a minha luta é por um concelho da Trofa mais transparente, mais íntegro e no sentido da evolução contínua, onde o poder cuja função é servir-nos pode e deve ser questionado. Das pessoas para as pessoas, sem medo nem clientelas.

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