História #1

por A. Grevy 0

Não sou da Trofa. Não nasci nem me criei aqui. Mas quis o destino, ou qualquer outra coisa que reja este nosso universo, que eu aqui viesse parar. Nos quase 20 anos que por aqui ando, vi muita coisa passar-se, serpenteando entre o bom e mau, conferindo carácter ao sítio e ajudando na opinião que fui formando sobre uma cidade que me é querida e que agora é a minha casa. Como já tenho “dupla nacionalidade” – tripeira e trofense, sinto-me à vontade para contar as minhas histórias e partilhar as minhas impressões (que valem o que valem) sobre a cidade que me acolheu sempre de braços abertos através da hospitalidade e amizade dos seus habitantes. Ainda tenho de fazer uma compilação mental do “best of” das minhas memórias trofenses, mas entretanto partilho convosco a minha primeira recordação de cá vir.

Corria o Mês de Maio de 1998. Época pós-queima das fitas. Andei pela primeira vez num comboio da antiguinha linha estreita que me deixou ali onde é agora a Alameda. Quando desci na plataforma 1 forrada de alcatifa verde, confesso que a primeira coisa que me ocorreu foi: “Vim parar ao fim do mundo!” Não me levem a mal, mas em 1998 isto era muito diferente, e sendo eu cachopa de cidade grande, fiquei um pouco pasmada! A primeira impressão, normalmente conta muito, mas neste caso não foi a definitiva. Um meio pequeno, sim, mas com um coração enorme, cheio de vontade de crescer e se tornar melhor, pessoas de trabalho, honestas, daquelas que ainda dizem bom dia e boa tarde a estranhos na rua (gosto tanto). Um Norte diferente daquele a que me tinha habituado, mas um Norte mesmo assim, de pêlo na venta e convicções firmes e isso merece respeito.

Comecei a conhecer os cantos à casa pela mão daquele que agora é meu marido, e a perceber que a dureza do aspecto da cidade nada tinha a ver com o que eram as pessoas. Convém que se perceba que o relato se baseia apenas na minha experiência e na sorte que tive em encontrar e conhecer gente que, passados quase 20 anos, continuam na minha vida e hão-de continuar! Aquilo que faltava em termos de desenvolvimento abundava em termos humanos, e depois de me apaixonar por um Trofense, apaixonei-me igualmente pela Trofa.

Passava cá quase todos os fins de semana, que eram recheados de atividades que nada tinham a ver com aquilo a que estava habituada no Porto. Café depois do almoço no Leme, tardes de jogos no Navegador, idas à bola a um sem número de campos de terra batida ver os jogos do “menino” (Lousado, Bougado, Fradelos, etc), jantares no Meia-Pipa, jogos de Magic na antiga sede do PCP, concertos dos Ectovult na Junta de Freguesia, no Mercado, no Liceu, café depois do jantar no Café S. José que ainda hoje é o meu preferido! Enfim, havia sempre o que fazer, com quem estar, e nos primórdios dos telemóveis, era tão bom! Nunca era preciso combinar grande coisa. Ou tocava-se na casa deste ou daquele (e quem nunca passou por aquele momento em que se toca na casa de algum amigo e de repente se apercebe que não sabe o nome “real” dele ou dela?), e depois formava-se a excursão até ao “tasco” mais próximo, para falar de tudo e de nada, com a despreocupação característica da juventude.

Ficam para sempre as recordações, na minha memória e nas milhares de fotografias que fui tirando (hábito que herdei da minha Mãe, e ainda bem). Já mudou muita coisa, muitos lugares deixaram até de existir, houve pessoas que saíram da minha vida e novas entraram, frequentam-se outros sítios e ganham-se novas rotinas, porque a vida é evolução e mutação, e é assim que tem de ser. A morar e a trabalhar no coração da Trofa, do alto do meu “modesto 1º andar”, como cantam os Xutos, posso agora dizer que a Trofa também “é minha”!

 

Fotografia via Mapio

A. Grevy

Sou das histórias e gosto delas. As que marcam a diferença, as que nos marcam pela diferença e as que primam pela verdade. Quando se tem a sorte de se viver dentro de histórias imaginárias as dores deste mundo, que ele causa, desaparecem, mas não é com essas nem dessas que vivo. Sentimentalista, ativista e pro tudo aquilo que sem magoar ninguém, nos faça felizes! Escrevo porque não tenho outro remédio, porque numa página em branco, existe o conforto e a excitação de um mundo inteiro de possibilidades! Escrevo porque o “papel” não julga, ampara e “ouve” tudo aquilo que me vai cá dentro… e é tanta coisa!

Migrada do Porto para a Trofa em 2015, e sua frequentadora há quase duas décadas, é a esta terra que agora chamo casa! E é com imenso prazer que me junto a uma comunidade de autores que respeito muito! Aos que embarcarem nesta viagem comigo, agradeço e despeço-me com uma citação do meu autor americano preferido – Paul Auster: “As histórias só acontecem àqueles que estão dispostos a contá-las”

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