Os cofres públicos (também) pagam isto? Porquê???

por João Mendes 0

A poucos dias da Feira Anual da Trofa, um dos mais importantes eventos que têm lugar no concelho da Trofa, a velha nuvem de polémicas que paira sobre este grande certame mantem-se. A parte equestre do evento continua entregue a uma associação criada em cima do joelho para o efeito, uma associação que, coincidentemente, foi criada por amigos das pessoas no poder, que incluem a veterinária da autarquia e o irmão de um elemento do executivo da junta de Bougado, a entidade organizadora. Coincidência das coincidências, falamos do mesmo elemento do executivo bougadense que viu também a sua esposa ser promovida ao topo da hierarquia da Trofáguas, empresa que era para extinguir mas que lá vai sobrevivendo, vá-se lá saber porquê. Tudo coincidências, claro, que para a estatística dos hipotéticos tachos e favores só contam os dos outros partidos

Quem também não perde uma Feira Anual da Trofa, pelo menos desde que foram criados, são os dois pseudo-órgãos de comunicação social afectos ao regime humbertista, que por estes dias veiram à tona respirar. E isso é sempre digno de registo. O Correio da Trofa, jornal criado no âmbito da campanha eleitoral da coligação PSD/CDS-PP de 2013, regressou às bancas (a algumas, vá lá, apesar de ser gratuito) na passada Quarta-feira, dia 14 de Fevereiro, depois de a sua quinzenalidade ter falhado duas vezes, o que de resto não é novidade nenhuma. Umas vezes sai, outras não, who cares?

Mas esta semana não deve falhar. Porque a oportunidade de distribuir gratuitamente um jornal de preço riscado, à multidão que vai invadir o Mercado da Trofa, é uma oportunidade que uma espécie de jornal como o Correio da Trofa não pode perder. Aliás, é uma ocasião perfeita para uma entrevista ao presidente ou a um vereador, para um artigo de opinião encomendado ou para "notícias" mais cirúrgicas. Amanhã, se a periodicidade for para respeitar, para variar, logo ficaremos a saber.

Regressemos à edição de 14 de Fevereiro. O formato é o do costume, com uma micro-entrevista e uma série de pequenas e inofensivas “notícias” e opiniões, nunca desalinhadas (com uma refrescante excepção, à qual dedicarei em breve outro escrito), e os mesmos anúncios publicitários nos sítios do costume. Cada um sabe de si e do seu dinheiro, e se as empresas anunciantes optam por investir num “jornal” que umas vezes chega às bancas, noutras não, é porque terão bons e legítimos argumentos para isso. Porém, nesta última edição, há um anunciante que a todos diz respeito, e que surge de rompante, como principal cliente do espaço publicitário do Correio da Trofa. Trata-se da Câmara Municipal da Trofa. Por esta é que eu não estava à espera! Quem diria?

Ao longo das 16 páginas deste Correio da Trofa, existem quatro anúncios publicitários com origem nas instituições públicas locais. Dois deles, dedicados à Feira Anual da Trofa, um na capa e outro de página inteira, terão muito provavelmente tido origem na junta ou na autarquia. Poderão até ter origem na Equestrian Events, mas parece-me pouco provável. Os outros dois, dedicados aos Campeonatos Concelhios de Sueca e Columbofilia, ocupam apenas um quarto de página. Para uma autarquia liderada por um executivo que boicota activamente o trabalho do único órgão de comunicação social local regular que trabalha dentro da legalidade, a proximidade da gestão de Sérgio Humberto com meios, digamos, irregulares, é no mínimo irónica. Principalmente se tivermos em consideração a natureza e origem do Correio da Trofa.

Existe, contudo, uma dúvida no ar. Uma dúvida que, contrariamente a outras, passa no filtro da plataforma Base. Uma dúvida que decorre do expediente que permite contratualizar valores abaixo de um certo montante, sem dar cavaco a ninguém. E não, não estamos a falar de trocos. E essa dúvida está relacionada com a contratualização destes serviços de publicidade. Porque os jornais não vivem de ar e vento, principalmente um jornal cujo preço vem há anos riscado, e que vive exclusivamente de publicidade. E parece-me importante perceber se existe dinheiro dos cofres públicos trofenses a contribuir para sustentar um jornal criado para servir as mesmas pessoas que agora lhe contratualizam serviços com o nosso dinheiro.

Sabemos bem que o Correio da Trofa já recebeu largas dezenas de milhares de euros do executivo Sérgio Humberto. Sabemos também que alguns dos seus antigos colaboradores (que talvez sejam actuais, não sabemos, ou não fosse o Correio da Trofa um hino à opacidade onde ninguém assina nada que não sejam os artigos de opinião, isto apesar de haver registo de artigos de opinião escritos por uma pessoa e assinados por outra, e onde até a ficha técnica desapareceu nas mais recentes edições) receberam uma pipa de massa dos cofres públicos. E sabemos também que em política não há frete que não dê origem a calote. Responsáveis eleitos sérios nunca torrariam dinheiros públicos numa fraude como o Correio da Trofa, mas Sérgio Humberto terá os seus motivos, que me parecem muito óbvios.

Da parte que me toca, choca-me que um representante eleito decida colocar dinheiro público num jornal de origem e funcionamento duvidoso, que a ERC cancelou no passado por não cumprir as mais elementares obrigações a que estava sujeito, com um historial conhecido de irregularidades. Choca-me, mas não me surpreende, ou não tivesse o Correio da Trofa sido criado como instrumento de propaganda política pela mesma máquina que fez eleger Sérgio Humberto. E seria importante esclarecer que valor dos nossos impostos foi entregue ao órgão não-oficial da coligação Unidos pela Trofa. Claro que, a julgar pela forma cobarde, evasiva e infantil como o presidente da câmara meteu os pés pelas mãos quando tentou justificar a nomeação política da líder da JSD para um cargo remunerado acima da média nacional, mais vale esperar sentado. A aristocracia sempre se esteve nas tintas para justificar as suas acções perante a plebe.

João Mendes

Radicalmente contra todas as formas de instrumentalização dos recursos públicos em função dos apetites partidários e com um apetite insaciável pela desconstrução de mentiras e outros embustes que nos são diariamente oferecidos pelas elites dirigentes, a minha luta é por um concelho da Trofa mais transparente, mais íntegro e no sentido da evolução contínua, onde o poder cuja função é servir-nos pode e deve ser questionado. Das pessoas para as pessoas, sem medo nem clientelas.

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