História #3 – Parem o Mundo! Deixem-me sair!

por A. Grevy 0

Século XXI, civilização avançada, primeiro mundo, era moderna… Tudo mentira! Continuamos a ser seres completamente bárbaros, de valores entorpecidos, de maldade intrínseca, predadores sem respeito pelo equílibrio dos ecossistemas, seres invejosos, vaidosos, potenciados pela falha social e moral que é esta era das redes socias (as centrais da coscuvelhice e do auto-afago). Bill Waterson disse, e bem, que “O sinal mais claro de que existe vida inteligente noutros sítios do universo, é que nunca tentou contactar-nos!” A excepção é agora a regra e, infelizmente, para nós, nada menos que a nossa extinção irá salvar este planeta e os seus habitantes naturais. Visão derrotista e pessimista, a minha. De coração partido, chamo-lhe visão realista. Os factos estão à disposição de todos, de todos aqueles que se derem ao trabalho de os querer ver e analisar. Mas nós não somos assim, não somos de análises. Mudamos de canal quando somos enfrentados com as imagens da realidade do mundo que criámos e destruimos diariamente. O tempo acabou.

E agora, lá vem ela “bater no ceguinho” – podem dizer! Sim, a causa é justa, não é debatida o suficiente, o grau de indiferença e de maldade a ela ligada é alarmante, e está presente nas nossas vidas, no mundo, no país, na Trofa. Quer queiramos quer não, a forma como tratamos os animais diz muito de nós como sociedade. Neste momento, a sociedade está PODRE! No meu texto anterior escrevi sobre santuários e abrigos para animais vítimas de maus tratos, de abandono, de negligência, etc. Hoje escrevo sobre aqueles que são, potencialmente, os animais que mais sofrem, vítimas de tortura, de abuso de tal forma atroz que nem a minha imaginação calamitosa consegue sequer processar: Cães utilizados em corridas, mais especificamente os Galgos (a 8ª edição aconteceu no passado dia 11 no concelho da Trofa), corridas que são intituladas de “desporto”, e os Touros e Cavalos utilizados nas Touradas e Garraiadas (como a da Feira Grande na Trofa), para regozijo de “pessoas” que continuam a usar e abusar destes animais com a velha desculpa de “Ah e tal, é tradição…!”

Tradição? (-inserir coloquialismo-) Ok! ‘Bora lá esmiuçar as tradições. No tempo dos romanos os cristãos eram colocados em arenas com leões e tigres. Os romanos divertiam-se imenso! Era tradição. Era! Duvido que Portugal, de maioria cristã, gostasse muito de reavivar essa “bela tradição”! As touradas já estiveram proibidas em Portugal no reinado de D. Maria II. E além disso o papa Pio V proibiu na sua bula "De Salute Gregis Domenici" as touradas, chegando a proibir sepulturas católicas e a excomungar quem participasse em touradas, precisamente pela sua violência. Mas o ser humano está, pelos vistos, condenado a repetir os mesmos erros uma e outra vez…

Sofrimento transformado em espetáculo…Os nazis também se divertiam a praticar tiro ao alvo com os judeus. Também se apedrejavam até à morte mulheres por adultério ou suspeita (mesmo infundada) dele, cortavam-se mãos para sancionar roubos, queimavam-se “bruxas”…e a lista continua! Se se fala de acabar com um feriado municipal ou nacional, seja ele qual for, cai o Carmo e a Trindade, mas se se fala de acabar com a Corrida de Galgos ou a Garraiada da Feira…bem, ou não se fala, ou os sugestionantes são enxovalhados, insultados, apelidados de “destruidores de tradições centenárias”, acusados de quererem acabar com património cultural. Mas que raio de sociedade, que raio de gente somos que erguemos a voz para defender a violência gratuita contra estes animais, mas que não saímos do sofá para lutar contra injustiças sociais que nos assolam diariamente? “Preocupem-se com as crianças, e os idosos, e os sem-abrigo, e as guerras, e… e… e…” Claro que sim! Claro que nos preocupamos, mas umas lutas não invalidam as outras. Falo por mim, que já estive em várias na minha vida!

A meu ver, a Trofa não pode nem deve dar-se ao luxo de ter dualidade de critérios. Não é razoável nem compreensível sequer ter cartazes espalhados pelo munícipio a promover a adopção de animais (o que é excelente) e ao mesmo tempo ter cartazes a promoverem a 8ª edição de uma corrida de Galgos, dum campeonato nacional, com patrocínios de tudo o que é negócio Trofense, da Camâra Municipal, etc. Através de apelo popular, um dos patrocínios foi retirado (Da Remax). Como se pode apelidar tal coisa de desporto? Como se pode permitir que isto sequer exista?? Em 2016 a Visão fez uma reportagem que entitulou de “Mundo cruel e secreto das corridas de galgos”. O adjetivo “cruel” não é de todo suficiente para qualificar tal bestialidade. 

Os greyhounds são amarrados à máquina (uma nora horizontal e mecanizada, segmentada por chapas metálicas eletrificadas) e forçados a correr no tapete a altas velocidades. Apesar de o risco de contraírem lesões ser grande, a moda parece ter pegado e já chegou a alguns galgueiros portugueses, que persistem em usar também a nora circulante, que dá choques elétricos aos animais que correm mais devagar. Por vezes, os animais não aguentam e partem as patas. Aí, como dizem os galgueiros, são para 'deitar fora.

Mas os senhores que usam estes dóceis animais não ficam por aqui, não! 

A partir dos três/quatro meses começam a ser treinados todos os dias, e aos cinco meses passam para as noras circulares”. Alguns ficam pelo caminho devido a fraturas ou fissuras ósseas, nas patas ou no fémur, ou a lesões musculares, e por norma são abatidos ou abandonados.” Já para não falar de todo um outro mercado que ganha muito, muito dinheiro com a venda de substâncias para a “dopagem dos galgos com esteroides anabolizantes, cocaína, viagra, cafeína...

Digam-me na cara que isto é desporto! Digam-me na cara que isto é admissível! (eu não arriscaria!) É urgente que as pessoas que ainda têm forças para lutar contra a exploração e assassínio destes seres se unam e Exijam o que é devido, que se acabe com estas e outras práticas em nome de tradições obsoletas e com a desculpa de serem “desporto”! Não é ir a referendo! É - THE END - , - GAME OVER - e pronto! Já chega!!!

Continuo e continuarei do alto do meu metro e sessenta e sete a defender os que não têm voz, a falar por aqueles que, sem escolha, estão mal fadados a uma vida de servitude e sofrimento, às mãos desta espécie invasiva e corrosiva que é a espécie humana.

Na passada semana faleceu Stephen Hawking, que contra todas as expectativas viveu 76 anos e nos brindou com a sua genialidade. Foi um ser de excepção, não talhado para este mundo de mentes pequenas e obscenamente usadas para ganho próprio. E concluo com uma frase dita por ele e que, infelizmente, resume aquilo que eu penso da humanidade: “ Apenas temos de olhar para nós próprios para percebermos como a vida inteligente se pode transformar em algo que não gostaríamos de conhecer!”

A. Grevy

Sou das histórias e gosto delas. As que marcam a diferença, as que nos marcam pela diferença e as que primam pela verdade. Quando se tem a sorte de se viver dentro de histórias imaginárias as dores deste mundo, que ele causa, desaparecem, mas não é com essas nem dessas que vivo. Sentimentalista, ativista e pro tudo aquilo que sem magoar ninguém, nos faça felizes! Escrevo porque não tenho outro remédio, porque numa página em branco, existe o conforto e a excitação de um mundo inteiro de possibilidades! Escrevo porque o “papel” não julga, ampara e “ouve” tudo aquilo que me vai cá dentro… e é tanta coisa!

Migrada do Porto para a Trofa em 2015, e sua frequentadora há quase duas décadas, é a esta terra que agora chamo casa! E é com imenso prazer que me junto a uma comunidade de autores que respeito muito! Aos que embarcarem nesta viagem comigo, agradeço e despeço-me com uma citação do meu autor americano preferido – Paul Auster: “As histórias só acontecem àqueles que estão dispostos a contá-las”

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