Belive 2018: boas notícias que podiam ser muito melhores!

por João Mendes 0

Penso que será mais ou menos unânime a ideia de quê, de ano para ano, o BeLive não tem sofrido grandes alterações, o que não é necessariamente bom ou mau. A começar pelo local, que continua a ser o mesmo, e que tem, no contexto da Trofa, excelentes condições, pese embora as bocas que se ouviam dos actuais líderes políticos, no tempo em que eram oposição e protestavam contra o facto do executivo Joana Lima concentrar eventos em demasia na zona da estação, onde ainda hoje tem lugar a Expotrofa, o Belive e o desfile de Carnaval. Políticos. 

A organização do recinto e do evento têm também mantido os mesmos moldes. E há boas notícias: o espaço para os músicos locais, naquela que de resto é a sua festa, e que tinham perdido terreno em 2016 e 2017, passando de três projectos para dois, para dar lugar no palco principal a mais um artista “estrangeiro”, volta este ano a ter três projectos trofenses, sinal de que, acredito, o executivo deu finalmente ouvidos a alguns membros do Conselho Municipal de Juventude que, desde 2016, defenderam a reversão do “corte” na música local, imposto pelo executivo, ali representado pelo vereador Renato Pinto Ribeiro, coadjuvado pelo silêncio, sempre útil, do então representante do PSD, hoje vereador, e da representante da JSD Trofa, hoje avençada da autarquia.

Em 2014, o executivo investiu 37 mil euros na organização do primeiro Belive e decidiu não pagar às bandas trofenses, havendo mesmo um dirigente local do PSD a justificar esta situação com o "facto" de estas terem “o privilégio de usufruir das mesmas condições técnicas e de palco dos nomes internacionais que participam nesta Festa”, o que é sempre uma boa demonstração da falta de noção que grassa no seio da classe política que temos. No ano seguinte, pressionado pelo Conselho Municipal de Juventude, o executivo lá aceitou a justiça da reivindicação e passou a pagar a actuação dos artistas locais. E assim continuou.

Contudo, em 2016 e 2017, os decisores públicos decidiram cortar no número de projectos musicais trofenses, de três para dois, e atribuíram a vaga aberta, respectivamente, a Paulo Sousa, ex-concorrente do Ídolos, e Matay. Este corte ilustra bem o que tem sido a postura deste executivo relativamente aos projectos musicais mais jovens do concelho, não obstante o excelente investimento que foi feito na Orquestra Urbana da Trofa, que congrega muitos deles. No entanto, tal não invalida que não haja mais espaço para os jovens músicos do concelho no Belive, até porque a sua participação representa custos residuais, num orçamento que aumenta todos os anos. São opções políticas que falam por si.

Felizmente, o paradigma parece estar a mudar. Em 2018, não só o executivo deu ouvidos aos vários representantes do Conselho Municipal de Juventude (CMJ), abrindo novamente espaço a três projectos concelhios no palco principal, como finalmente percebeu que é possível ter uma banda extra no primeiro dia, até hoje reservado exclusivamente para um cabeça-de-cartaz, conforme vinha sendo reivindicado no CMJ, apesar da resistência do executivo ao longo dos últimos anos. Assim, este ano teremos Mariana Salgueirinho no primeiro dia, Bonsai no segundo e Gurilla no quarto. E no terceiro? No terceiro os organizadores acharam por bem repetir o mesmo Paulo Sousa que “roubou” o lugar a um projecto trofense, em 2016. Cabiam mais músicos trofenses no Belive, em vez de repetirmos o mesmo "estrangeiro" que ali actuou há dois anos? Cabiam, mas não era a mesma coisa.

Não sou especialista na organização deste tipo de eventos, apesar de estar perfeitamente familiarizado com os diferentes processos, mas há muitos anos que convivo com profissionais do meio, alguns deles meus amigos, que têm estado envolvidos nos maiores festivais portugueses e não só. E é mais que óbvio que existe espaço no Belive para aumentar muito mais a presença dos músicos trofenses, que consomem pouquíssimos recursos e que têm no Belive uma oportunidade de ouro para apresentarem o seu trabalho na sua terra. Na Trofa que também é deles. 

Reparem, por exemplo, que a narrativa oficial do regime assenta no “facto” de que o Belive é um festival de Verão, apesar de claramente não o ser, por inúmeros motivos que não são para aqui chamados. Porém, se assim o consideram, porque não começar os concertos mais cedo, como acontece nos festivais de Verão, onde o palco principal arranca, em média, por volta das 20h? Considerando que as actuações no palco principal nunca começam antes das 21:30h, essa hora e meia daria para quantos projectos mais? No mínimo dois. Sim, poderíamos ter três artistas ou bandas trofenses por dia, em cada dia do Belive, mas os organizadores do evento optam por não lhes dar essa oportunidade. E não será, com absoluta certeza, por motivos financeiros. Afinal de contas, o orçamento do Belive sofreu este ano um aumento de quase 20%, mais 8 mil euros do que em 2017, pelo que dinheiro não deve faltar. Faltará vontade, interesse ou visão, mas dinheiro não falta certamente.

Apesar das críticas, saúdo esta evolução positiva, mais do que justa, de aumentar o espaço dado pelos organizadores do Belive aos músicos trofenses. Contudo, as boas notícias podiam ser bem melhores. Muito melhores! Lamentavelmente, quem se ocupa de tão importante certame parece por vezes mais preocupado com discursos políticos de ocasião ou outras formas de propaganda política, algumas a roçar o ridículo e o paroquial, fechados na sua bolha, onde trocam elogios heróicos como se de voluntários abnegados se tratassem. Não são. E não fazem mais do que a sua obrigação, que é para isso que são pagos, e muito bem pagos: para trabalhar.

 

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João Mendes

Radicalmente contra todas as formas de instrumentalização dos recursos públicos em função dos apetites partidários e com um apetite insaciável pela desconstrução de mentiras e outros embustes que nos são diariamente oferecidos pelas elites dirigentes, a minha luta é por um concelho da Trofa mais transparente, mais íntegro e no sentido da evolução contínua, onde o poder cuja função é servir-nos pode e deve ser questionado. Das pessoas para as pessoas, sem medo nem clientelas.

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