BeLive 2018: sempre os mesmos

por João Mendes 0

Quem esperava uma crónica dedicada a criticar a Festa da Juventude da Trofa, por apresentar um cartaz de cromos repetidos das poucas festas que aconteceram no concelho nos últimos anos, sairá daqui desiludido. Naturalmente, sou a favor de maior diversidade, e se é certo que isso se verificou nas duas primeiras edições do BeLive, a verdade é que, de 2016 para cá, o evento foi literalmente engolido pela música pop, excepto no que toca a bandas trofenses. Por falar em bandas trofenses, nota positiva para a organização, que este ano convidou três novos projectos, com três sonoridades distintas, feitos de artistas jovens mas experientes, que irão certemente proporcionar bons espectáculos.

Este ano, mais do que manter o registo pop, o BeLive vai repetir artistas que estiveram na Trofa recentemente. Diogo Piçarra e Paulo Sousa estiveram ambos na edição de 2016, Jimmy P esteve na Feira Anual da Trofa de 2017, há pouco mais de um ano. Para uma festa que quer ser festival, talvez fosse tempo de olhar para fora do concelho e analisar as boas práticas de um país exímio em organizar grandes festividades. No que diz respeito a não repetir os mesmos, pelo menos não com tão pouco distanciamento, e no que toca a diversificar a oferta musical, para melhor servir a globalidade dos trofenses, algo que até estava a acontecer mas que acabou por se perder.

Contudo, não é este o tema que me traz aqui, apesar da pertinência que entendo que ele tem. O tema que me traz aqui, e que talvez ajude, em parte, a explicar o fenómeno dos repetentes no alinhamento do cartaz, tem a ver com essa estranha coincidência de ser sempre a mesma empresa a organizar o evento. Até no único ano em que não terá organizado o evento, segundo a plataforma Base, que revela que no ano de 2016 a organização foi entregue à empresa Ritmos Lendários, o logótipo da Gabba Produções figura no cartaz do BeLive.

Nos quatro últimos anos, a Gabba Produções facturou 210.143,40€, entre serviços prestados à CM da Trofa e à Junta da União de Freguesias de Bougado. Se a este juntarmos o valor do IVA, falamos de uma despesa que ascende aos 258.476,38€. E quando consultamos os ajustes directos referentes a cada um dos eventos (ver em baixo), verificamos que não estão lá referidos outros concorrentes ou convidados. Apenas a Gabba Produções. Ah! E a Ritmos Lendários, a entidade organizadora de 2016, cujo logo a organização se esqueceu de colocar no cartaz de 2016.

Não estou, de forma alguma, a querer colocar em causa a competência desta empresa ou a legalidade e legitimidade destes contratos. Não tem rigorosamente NADA a ver com isso. Apenas a constatar que, sem oposição, é sempre a mesma empresa que fica com estes espectáculos. Organizou quatro dos cinco BeLive, apesar de tudo apontar para o seu envolvimento naquele que alegadamente não organizou, organizou os concertos da FAT de 2016 e 2017, prestou serviços de som e iluminação nas festas da juventude de Bougado em 2015 e 2017 e ainda trouxe o cantor Fernando Daniel a festa Holi Color, que aconteceu no ano passado, também em Bougado. Dos 383.259,19€ em ajustes directos que a Gabba Produções tem registados na Plataforma Base, mais de metade desse valor (54%) foi contratualizado pelos actuais executivos da CM da Trofa e da JUF Bougado.

Questiono-me se outras propostas têm sido ouvidas ao longo dos últimos anos, até porque existem, neste país, inúmeras empresas a prestar o mesmo tipo de serviço. Contudo, por algum motivo ao qual sou alheio, uma única empresa detém o monopólio da organização das principais festividades orientadas para os mais jovens. Apesar de, em tão poucas edições, conseguir repetir artistas, num país onde a produção musical vive uma era de transformação e evolução sem precedentes, com uma oferta cada vez mais alargada e diversificada. Porque será que são sempre os mesmos?

 

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João Mendes

Radicalmente contra todas as formas de instrumentalização dos recursos públicos em função dos apetites partidários e com um apetite insaciável pela desconstrução de mentiras e outros embustes que nos são diariamente oferecidos pelas elites dirigentes, a minha luta é por um concelho da Trofa mais transparente, mais íntegro e no sentido da evolução contínua, onde o poder cuja função é servir-nos pode e deve ser questionado. Das pessoas para as pessoas, sem medo nem clientelas.

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