O preço da apatia

por João Mendes 0

No passado dia 3 de Julho, na sequência de uma publicação no blogue …e a Trofa é minha, que visava partilhar informação da autarquia sobre o programa Casa Segura, uma parceria entre a Polícia Municipal (PM) e a CM da Trofa, antigos operacionais da PM da Trofa surgiram na caixa de comentários, manifestando fortes dúvidas sobre o programa e revelando que a força havia sido reduzida de mais de 10 para dois agentes, número manifestamente insuficiente para executar qualquer programa de policiamento de proximidade, num concelho com 72km2 e cerca de 40 mil habitantes.

Confesso que tenho muita dificuldade em perceber como é que uma força de segurança com tão poucas unidades, que segundo pude apurar são 3 e não 2, comandante incluído, consegue desenvolver as suas actividades quotidianas, quanto mais levar a cabo um programa de policiamento de proximidade minimamente estruturado. Três pessoas (uma para cada 13,3 mil cidadãos trofenses) não fazem milagres, por muito bons que sejam a fazer o seu trabalho.

A minha dificuldade de compreensão aumenta substancialmente quando me deparo com os vários estágios remunerados, avenças e ajustes directos, que parecem desenhados à medida de militantes dos partidos no poder na Trofa, militantes esses que tiveram um papel particularmente activo na campanha eleitoral de 2017. Porque não tenho dúvidas que o concelho da Trofa precisa mais de polícias municipais do que de boys partidários. E se há dinheiro para tachos e favores, porque não optar antes por reforçar a Polícia Municipal? Não haverá outra forma de pagar lealdades políticas, que seja menos custosa para o endividado erário público trofense?

São as prioridades que temos, num concelho onde a criminalidade parece aumentar, onde os assaltos a carros no centro da Trofa são constantes e onde os actos de delinquência se multiplicam. Num concelho onde há dinheiro para avenças chorudas, para financiar folhetins partidários travestidos de órgãos de comunicação social e manobras de propaganda pré-eleitoral, como o almoço sem precedentes que há um ano foi oferecido a centenas de idosos do concelho na Quinta da Malafaia, a um mês das eleições autárquicas, e que contou com a presença da elite política local em peso.

Faz falta, é minha forte convicção, um movimento organizado de cidadãos trofenses, capazes de monitorizar a forma como o nosso dinheiro é gasto, pressionando, desta forma, a actividade dos responsáveis políticos locais. Um movimento imune aos polvos partidários, que assuma um compromisso, sem reservas, com o superior interesse da Trofa e dos trofenses. Um movimento acima dos partidos e das batalhas eleitorais, construído a pensar no futuro e não nas próximas eleições, que escrutine qualquer responsável político e não apenas os que não professam os seus ideais. Porque só uma sociedade organizada e consciente da sua condição será capaz de lutar contra a má despesa pública, contra os arranjos partidários e contra as obras públicas inflacionadas.

Até lá, continuaremos a pagar o elevado preço da nossa apatia. Continuaremos a assistir ao mesmo despesismo, ao mesmo festim de cargos e favores, à mesma negligência, sabendo, lá no fundo, que nada disso é necessariamente inevitável. Continuaremos a dizer que são todos iguais, que os que virão a seguir serão iguais ou piores e que nada podemos fazer contra tão poderosas individualidades. E continuaremos a saber, bem lá no fundo, que nada disso é verdade. Porque somos muito mais do que julgamos. Muito mais e muitos mais.  

Fotografia via blogue ApoDiário

(originalmente publicado na edição nº 675 do jornal O Notícias da Trofa, de 6 de Setembro de 2018)

João Mendes

Radicalmente contra todas as formas de instrumentalização dos recursos públicos em função dos apetites partidários e com um apetite insaciável pela desconstrução de mentiras e outros embustes que nos são diariamente oferecidos pelas elites dirigentes, a minha luta é por um concelho da Trofa mais transparente, mais íntegro e no sentido da evolução contínua, onde o poder cuja função é servir-nos pode e deve ser questionado. Das pessoas para as pessoas, sem medo nem clientelas.

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